Amigos Para Sempre

 

“Agora te peguei!” Cantou vitória antes de realmente conseguir colocar o inseto saltitante dentro do pote.

Frustrado, ainda tentou mais uma, duas, três, quatro vezes. Só não tentou mais pois não tinha mais braços. Por fim, Naj se contentou e sentou-se observando a pequena criaturinha saltitar por cima da superfície de um lago de águas límpidas próximo da sua vila. “Como será que ela consegue fazer isso?” Imaginava-se afundando assim que colocasse seus pés no que, na verdade, era conhecido por Baía Silenciosa.

Com o pote vazio em suas mãos, Naj retornava para sua casa quando escutou alguns Grimmies de sua mesma idade cochichando.

“Veja! É ele!” Apontou o primeiro.

“Quem?” O segundo quis saber mais.

“O que gosta de aventuras!” Respondeu o terceiro.

“O que é aventuras (sic)?” O primeiro e o terceiro relevavam as perguntas do segundo por este ser menor.

“Quem gosta de sair por aí e não quer nada com nada.” Arriscou o primeiro com as palavras de sua própria mãe.

“Ah!” O segundo fez que entendeu.

“Vocês viram que os braços dele debaixo são mais curtos que os de cima?” Instigou o terceiro.

“Nem tinha notado, mas você tem razão!” O primeiro apertou seus olhos tendo medir os braços de Naj mentalmente.

“E os meus? São mais curtos?” O segundo esticou seus quatro braços o mais que podia e prendeu a respiração aguardando a resposta.

Naj parou e fulminou os três Grimmies que falavam dele. Porém, ao invés de sentirem-se envergonhados, os três se levantaram e começaram a fazer caretas e chacotas. À Naj não sobrou outra opção senão se virar e rumar para a vila vizinha. ‘Se não me querem aqui, pois bem, vou me embora para sempre’. Lamentava-se no alto de sua maturidade.

Entre a vila de Naj e a vila vizinha havia um enorme lago que se estreitava em uma parte. De um lado havia o Grande Lago e do outro a Baía Silenciosa. Nesse estreito havia uma passarela formada por madeiras e presa por cipós. Geralmente, antes de iniciar a travessia, olhava-se para ver se não tinha ninguém vindo. Se houvesse alguém, era de praxe aguardar antes de ir. Naj, cabisbaixo, só reparou que havia esquecido de olhar quando trombou com outro Grimmy.

“Olhe por onde anda!” Resmungou Naj.

“Já estava atravessando, você deveria ter esperado sua vez como todo mundo faz!” Ouviu o retruco.

“Eu conheço você!” Naj o encarou. Porém, o outro Grimmy nem se manifestou. “Você passa pela minha vila todo dia.” Confrontou-o.

“Não sabia que aquela vila era sua. Acabadinha ela, não?” Satisfez-se ao ver que Naj caíra em sua zombaria.

“Sabe de uma coisa?” Naj agora queria desmoralizar o outro. “Seus braços debaixo são mais curtos que os de cima!” Ergueu sua cabeça para tentar ficar mais alto que seu desafeto.

“Os meus?! Sabe que nunca tinha reparado…” O Grimmy se olhou de todas as maneiras para ver se aquela informação procedia e vendo que era mentira enfrentou-o com seus próprios argumentos. “E você? Não tem defeitos?”

Naj colocou seus braços para trás. Ele não esperava por essa. Ele esperava por algum xingamento, por um empurrão, por outras frases sem sentido a fim de inferiorizá-lo, mas ele não esperava por um questionamento que o deixasse sem palavras, que o fizesse olhar para si.

“Não tenho!” Afinal, ele não podia deixar de vencer aquela disputa verbal.

“Nem unzinho? Saiba que todos temos defeitos.”

“Eu tenho um sim!” Vociferou enfurecido. “Um único! Sou um aventureiro!” Disse achando que o outro Grimmy cairia espantado no chão, como se aquilo fosse um sinônimo de marginal ou desajustado. No entanto, apenas ouviu risos do outro lado. “Você duvida?” Enfureceu-se ainda mais. E dizendo isso, se colocou de pé no corrimão de proteção e se jogou passarela abaixo.

A passarela nem era tão alta, mas Naj gritou com uma intensidade que os Grimmies das duas vilas devem ter escutado.

“Ploffff Xuáaaa!” Naj escutou assim que voltou à superfície. Era o outro Grimmy que havia se jogado atrás dele.

“Uau! Você realmente é um aventureiro, me ensina?”

“Como vou te ensinar? Nem sei quem você é.”

“Meu nome é Sum e sou da outra vila.”

“O meu é Naj.” Apresentou-se esticando uma de suas mãos para apertar a de Sum enquanto as outras três o mantinham boiando. “Por que você passa todo dia pela minha vila?”

(*Por que será que as crianças tem que crescer e se esquecer de toda sua sabedoria?)

“Eu sempre vou até um lugar, mas não tenho coragem de entrar. E para chegar lá preciso atravessar sua vila. Quer vir comigo?”

“Eu?!” Naj olhou assustado.

“Sim! Você pode me ensinar a ser um aventureiro e podemos desbravar o lugar, o que você acha?”

“Não sei se é uma boa ideia…” Naj não sabia como dizer que ele não era tão aventureiro assim. Impulsivo com certeza.

“Vamos, vai ser divertido!”

Naj não conseguiu dizer não, ainda mais porque nunca havia tido outro que quisesse participar de uma aventura com ele.

Os dois então nadaram até a margem da vila de Naj, que queria evitar passar pelo mesmo local que havia sofrido chacotas mais cedo. Mas Sum não o deixou. “Por aí não, você está indo para o local errado, é por aqui. Venha, vamos logo antes que escureça!”

E ao passarem pelos Grimmies zombadores, escutaram. “Vejam, é o de braços curtos aventureiros junto com o sem casa que vaga por aí!”

Sum e Naj se olharam, riram e correram.

Um Grimmy de barbas brancas que assistiu a toda a cena também sorriu. ‘Um amigo para toda a vida, não é isso o que importa?’ Cachimbava olhando a fumaça tomar a forma de sua imaginação.

 

 

 

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